#20

I'm a draw.
Feb 23 '12

48 horas

Nessas de reclinar a cabeça sob o encosto do banco, observo as linhas e curvas da sacada. O cheiro da janta do prédio vizinho parece ser bom. Faz tempo que eu não janto em casa, no entanto, faço isso quase sempre que estou longe.

Disse me certa vez me que “a casa é onde o meu coração está”. Ora, tem certas coisas que é melhor levar de casa, mas seria bom se o inverso fosse plenamente viável: poderia eu guardar toda essa sinestesia?

Lá, ela teria um espaço na prateleira mais alta, no cômodo mais iluminado ou em cima da mesa de trabalho, ao lado dos desenhos. Eu levaria, por exemplo, as cores que o pôr-do-sol reflete na água salgada; talvez levaria o som das risadas honestas; o “muito obrigado” de rodoviária e o cheiro dessas comidas que a gente sente quando dá uma volta em um bairro desconhecido. 

Ainda gosto do conforto do lar e confesso que a ideia de ter comigo tudo isso me parece tentadora, mas certas coisas quebram, desbotam e enchem de fuligem facilmente. 

Mesmo dentro de casa.