Dentre os vários lugares que morei, queria falar particularmente de um. Era um casarão antigo, no centro de uma cidade também antiga que eu não me lembro. Já andei e morei em tantos lugares que fica difícil memorizar nomes…
As ruas eram ladrilhadas e estreitas, de modo que a janela e a porta principal do imóvel dava pra calçada. Em onze meses do ano, era uma rua vazia, que doía a alma de qualquer morador ou transeunte. Porém, dava de frente pra avenida por onde o bloco passava. Costumávamos dizer que “a cidade sorria naqueles 4 dias”.
O casarão era de uma arquitetura exemplar. Possuía a fachada em tons rosé, o piso interno em tabuão cor clara e as janelas com as típicas trancas de 1800 e poucos. Tudo estava intacto ali, pouco fora mexido nesses 200 anos. Isso seria um fator pra orgulhar qualquer proprietário. E orgulhava mesmo.
Como tudo que está gasto, os problemas acabam escorrendo em frente aos olhos. E, literalmente, isso acontecia. Algumas telhas da casa estavam quebradas há anos e o forro não era impermeabilizado. Com isso, uma simples tempestade de verão alagava todos os corredores e molhava camas, armários e sofás. Em alguns quartos, o piso do chão já estava cedendo. A cada evento metereológico desse porte, via-se aquele belo imóvel ceder. E isso mexia no âmago dos moradores, dos habitantes, menos no do proprietário. Ou melhor, da proprietária.
Uma impermeabilização ou uma colocação de telhas novas não custaria muito. Propus oferecer a mão de obra, aprendi com um mestre de obras na Capital sobre forros. Mas ela, ao contrário do teto do casarão, não cedia. Dizia “não vou mexer nisso aqui, tá bom”, ou “não quero interferir no original”.
A reforma nunca aconteceu e soube tempos depois que o local foi lacrado pela Prefeitura, sob risco de desmoronamento. A fragilidade das paredes era tanta que uma chuva no meio de setembro, enfim, destruiu o que restava. Saí de lá pensando que tudo ali tinha solução. É triste dizer isso, mas a resiliência amarra nossas mãos, tampa nossa boca e ainda faz questão de nos por na primeira fila desse espetáculo destrutivo.
Organic sculptures made of soil and wheat grass seeds.
(vi unknownskywalker)
“Não entendo quando eles fazem festa pros quatro cantos do mundo quando estão apaixonados. Sei que a euforia nos deixa assim, meio festivos, mas comigo é ao contrário. A euforia se dissolve em calmaria e a exaltação é dissimulada quando vejo que, enfim, pude encontrar um motivo que me traga a paz”.
Sem desmerecer o Pato, mas eu AMO o instrumental dessa música. Sim, eu amo minha banda.
Without taking the credits of Pato (ex-vocal), but I LOVE the instrumental. Yes, I love my band.
Nessas de reclinar a cabeça sob o encosto do banco, observo as linhas e curvas da sacada. O cheiro da janta do prédio vizinho parece ser bom. Faz tempo que eu não janto em casa, no entanto, faço isso quase sempre que estou longe.
Disse me certa vez me que “a casa é onde o meu coração está”. Ora, tem certas coisas que é melhor levar de casa, mas seria bom se o inverso fosse plenamente viável: poderia eu guardar toda essa sinestesia?
Lá, ela teria um espaço na prateleira mais alta, no cômodo mais iluminado ou em cima da mesa de trabalho, ao lado dos desenhos. Eu levaria, por exemplo, as cores que o pôr-do-sol reflete na água salgada; talvez levaria o som das risadas honestas; o “muito obrigado” de rodoviária e o cheiro dessas comidas que a gente sente quando dá uma volta em um bairro desconhecido.
Ainda gosto do conforto do lar e confesso que a ideia de ter comigo tudo isso me parece tentadora, mas certas coisas quebram, desbotam e enchem de fuligem facilmente.
Mesmo dentro de casa.